sexta-feira, 12 de março de 2010

Eu, Por mim mesmo

Não pretendo ser um mestre de literatura, mas ao longo dos anos colecionei aprendizado que me permite deixar escritas as passagens nesta vida, aquelas que me vêem à memória e que gostaria de deixar registradas.
Por aqui tentarei relatar alguns fatos, alguns causos, algumas passagens que foram cômicas, ou até mesmo tristes, mas que mesmo assim merecem, pelo aferimento de minha censura, ser tornadas públicas.
Também não pretendo omitir, nem trocar nomes, mesmo porque quando citadas serão de pessoas que de alguma forma participaram ou tiveram influência neste aprendizado que chamamos de vida.
Falta-me neste momento um título, que provisoriamente chamarei de “Eu, por mim mesmo”
Pois bem.

Nasci em 15 de junho de 1954, em Bom Conselho, Pernambuco, filho do então marceneiro e Professor Clivio e da Professora Elita
Meu pai fora da marinha de guerra e residiu alguns anos no Rio de Janeiro e teve passagens nos EUA, de onde trouxe vários apetrechos domésticos, como jogo de chá japonês, cerâmica chinesa e uma radiola Garrard (conjunto de rádio e Passa-disco) que nos permitia ouvir músicas e notícias do mundo
No dia seguinte começaria a copa do Mundo que teve o Brasil eliminado nas quartas de final.
No mesmo ano, morria Getúlio Vargas.

Primeiras lembranças
Morava em uma ruazinha estreita, próximo à Praça do Coreto, mais adiante ficava o gerador de energia elétrica, (Bom Conselho não tinha energia da Chesf) que começava a funcionar às 17 horas e era desligado às 22 horas. Lembro que era fato comum a quebra do gerador e de passarmos dias sem luz elétrica, quando fazíamos uso de candeeiros e velas para iluminação da casa. Também não tínhamos fogão a gás, geladeira nem outro eletrodoméstico, comuns nos dias atuais, exceto um potente radio de 05 faixas que meu pai havia trazido dos Estados Unidos.
Comecei a estudar o curso primário no Grupo Mestre Laurindo, com a Professora Selma Albuquerque de onde só sairia no quinto ano direto para o curso de admissão e para o Ginasial no Ginásio São Geraldo.
Mudamos para uma casa, imensa para mim, 03 quartos grandes, quintal, varandão atrás, na Rua Dr. Manoel Borba, onde meu pai instalou sua oficina de marcenaria e no quintal plantávamos hortaliças e um pé de Maçã.
Das hortaliças eu tinha prazer de cuidar, sentia-me feliz em ver os tomates, os pimentões crescerem e amadurecerem.
Do pé de maçã trago comigo a lembrança de meu pai buscar blocos de gelo na fabrica de laticínios para colocar em sua raiz e vê-la produzir e o máximo que vimos foram algumas flores que não vingaram.
Tinha sete, oito anos de idade, corria o ano de 1962, o Brasil viria a ser bi-campeão de futebol, conforme noticia que ouvira no rádio, através das ondas curtas da Radio Globo, pela voz de Mario Vianna. Pensava que o jogo era em Bom Conselho, pois da casa de minha vó Luzia via uma multidão na praça D.Pedro comemorando, soltando fogos... um verdadeiro carnaval. Somente anos depois descobriria que o campeonato havia sido realizado no Chile 
Todos da casa tivemos sarampo, catapora e as doenças comuns à época que a vacinação era um tratamento longínquo, neste período a casa fixava fechada, nenhuma janela era aberta e os banhos eram tomados com água quase fervendo
Tivemos nosso primeiro contato com o cinema, nossa tia Socorro nos levava todos os domingos para as matinês do Cine REX do Tio João Presideu, onde vibrávamos com as aventuras de Jim das Selva, Rock Lane, Tarzan e faroestes recheados de muita luta.
Era uma festa, eu e meus irmãos arrumados, cabelos cortados à militar, roupa engomada no ferro à brasa, sguiamos ao cinema, nossa única diversão dos domingos
Nossos aniversários eram uma expectativa, afinal teríamos bolo, refrigerantes Crush, Coca Cola Guaraná, e refrigerantes de Pêra e Maçã.
As festas de meu pai eram todas um evento comentado na cidade, estavam ali em casa todos seus amigos, alunos e alunas dos colégios onde ensinava, festa que acabava religiosamente e às pressas as 9:45, porque às 10 horas da noite o gerador de eletricidade parava, dela não participávamos, afinal lugar de criança era na cama.
Nesta época comecei a adquirir gosto pela Música: Celly Campelo, Sergio Murilo, Golden Boys, Ângela Maria, Nelson Gonçalves faziam os corações saltarem e o meu saltou pela primeira vez por Lucy, de quem tenho poucas lembranças e nenhuma notícia, exceto que 10 anos depois viria a ficar (expressão de hoje) por um dia que resultou no rompimento de meu primeiro namoro adolescente.
Também enveredei pela arte de meu pai, a marcenaria, e já fazia meus brinquedos de madeira, carros, espingardas que jogavam caroços de feijão, etc. Já talhava figurinhas em tábuas de pinus e quando podia ajudava o velho em suas tarefas de marceneiro.
Como não éramos abastados, ajudávamos nossa mãe nos afazeres domésticos, no trato com as galinhas e somente depois fazíamos nossas tarefas de escola, sob o olhar severo de Dona Elita, minha saudosa mãe.
Não tinha noção de política, no entanto vivenciei as disputas acirradas entre Arnaldo Amaral, Raul Camboim, Valdemar Guedes etc. e nas disputas pelo governo do Estado, era comum ouvir nomes como Cid Sampaio, Miguel Arraes etc.,
Dos carnavais tenho poucas lembranças exceto da Turma do Funil do Beco de Dr. Raul, do Paganada, do Bafo da Onça, Titiricas. Era comum o mela-mela com talco, maisena e água suja jogados das janelas
Tive o primeiro contato triste com uma doença perigosíssima, a Poliomielite, pois uma parente de nosso vizinho havia sido atacada por ela e andava com dificuldades, sustentada por aparelho ortopédico. Desta menina, não tive mais notícias, espero que tenha ficado curada, pelo seu esforço e pelo esforço de sua família em desencadear uma campanha de vacinação contra este mal.
Corria o ano de 1964, ano especial de medos, sustos e tensão não só para mim como para dos os brasileiros: O Ano da revolução.
Era assustador ver os militares em exercício pela cidade, tiros de festim (Quem sabia?) disparados para todos os lados, correria, marchas pelas ruas, aviões que passavam em vôos rasantes jogando papéis (Não lembro o que estava escrito neles), caminhões e outros veículos militares passavam a todo o momento assustando principalmente as crianças. Estes veículos ficavam estacionados no beco de Dr. Raul e toda manhã era comum vê-los com os pneus arriados (Nunca soube quem fazia este serviço)
Os comentários que ouvia nos meus 10 anos de idade era que vivíamos uma guerra por conta de estudantes nascidos na terra que eram contra os militares e faziam parte de grupos banidos pelo governo de então, principalmente a UNE
Ingressar no curso ginasial, foi assustador, um professor para cada matéria e ainda tinha francês, ensinado pelo Dr. Cirilo, era meu debut em fazer novas amizades, a Selma, Vicente, Sebastião, José Antonio, Floriza, Florismário, Renivaldo (Caréu)... e os professores, Joaldi, Arnaldo de Teté, meu pai... perdoem os demais, a memória falhou nos nomes, também 45 anos depois e sem contato permanente...
Paralelamente, usava meu tempo livre para atividades proibidas pela minha mãe por serem perigosas tais como pescaria, banhos de açude etc. Nos demais esporte nem me habilitava, era muito franzino.
Era a época da jovem guarda, iê-iê-iê, dos Beatles, dos Mammas e The Papas, do rock, de Roberto Carlos etc. Minhas noites eram preenchidas com estudo, curtir as músicas destes astros, (proibidos por meu pai) e pela passagem das colegas de ginásio, que me faziam tremer e começar a sentir um comichão quando via uma menina bonita, mas tímido, nem me atrevia a falar alguma coisa, preferia expressar meus sentimentos na escrita secreta (contos e poesias) ou dança, mesmo não sendo um “pé de valsa”,  prática que não continuei (Que arrependimento). Aprendi com Sandoildo algumas técnicas no uso da argila e fazia alguns animais selvagens, além de aviões e automóveis, todos com um acabamento regular. Aprendi também a técnica de cinema de fita de papel onde desenrolávamos todo o roteiro através de desenhos dos personagens e paisagens.
Também me aventurei no futebol de tampinha de garrafa, famosa invenção do primo Sandoildo, ainda hoje lembrada por muitos e eram muitos praticantes, alem de nós dois tínhamos Pedro Jorge, Diógenes, Helio, Roberto Paulo Jorge, etc.
Campeonatos “mundiais” eram disputados entre nós.

...Continua